Numa altura em que o consumo interno revela sinais de abrandamento, a especialista em gravatas está a consolidar a sua presença nos mercados internacionais e a preparar um reforço do investimento no canal digital.
Apesar de o mercado nacional continuar a representar a maior parte do volume de negócios, a marca da António Manuel de Sousa tem vindo a registar um aumento progressivo nas exportações. Em 2024, cerca de 38% da sua produção foi destinada aos mercados externos, com o objetivo de ultrapassar os 50% nos próximos anos.
«As exportações têm vindo a crescer, o que é muito importante, porque vai colmatando o mercado nacional», sublinha Ana Lisa Sousa, sócia-gerente da empresa. O Reino Unido, a Espanha e os EUA são os principais destinos das vendas além-fronteiras, mas há margem para crescer. «Gostaríamos de crescer mais em Espanha, por exemplo, e mesmo nos EUA seria interessante aumentar», indica a sócia-gerente da empresa.
A instabilidade política e tarifária nos EUA ainda não teve impacto significativo nas vendas, uma vez que, até agora, os envios da Vandoma estavam abrangidos pelo regime de isenção aduaneira. «Nós conseguíamos enquadrar-nos na política de de minimis. Os nossos clientes começaram a sentir agora as tarifas, mas aquilo que me dizem é que são as regras e que as respeitam», descreve Ana Lisa Sousa.
Já Espanha é um mercado com grande afinidade com as gravatas, «onde se enquadra muito bem. Existem as “sastrerías” e todas aquelas lojas típicas onde o uso da gravata ainda faz sentido e eles são vaidosos e gostam», explica a sócia-gerente.
Em Portugal, a compra tem vindo a tornar-se sazonal, especialmente «na época dos casamentos e na parte das cerimónias, daí o verão ser sempre uma altura melhor». No entanto, Ana Lisa Sousa denota que «há muita gente que acha que é para ir sem gravata e já se perdeu aquele rigor ou aquela classe que antigamente víamos nos casamentos». Por isso, a Vandoma procura adaptar-se, focando-se em nichos onde o uso da gravata mantém uma importância cultural ou profissional, como no Reino Unido, onde ainda prevalece no vestuário corporativo. «Não acho que a gravata esteja em desuso, acho que há menos pessoas a usar, mas quem a usa faz muita questão de usar», sublinha.
Os custos e a competitividade
O ano de 2024 é descrito por Ana Lisa Sousa como «atípico», sendo que «nos primeiros meses foi parado, depois até às férias estivemos com muito trabalho e nem conseguimos acabar as encomendas todas. Em setembro ainda se trabalhou, mas depois nos últimos meses houve um abrandamento das vendas». No balanço final, o volume de negócios manteve-se estável face ao ano anterior, sem grandes quebras nem crescimento expressivo.
Entre os principais desafios, a sócia-gerente destaca o aumento dos custos fixos e o peso da carga fiscal. «Temos vindo a aumentar preços de ano para ano, que era algo que não fazíamos até há bem pouco tempo», refere. A qualidade e os tecidos premium, ainda que valorizados por muitos clientes, tornam difícil competir com produtos mais baratos produzidos nos países concorrentes. «A diferença entre a nossa gravata e a dos concorrentes, por exemplo da importação da China, é muito grande e isso começa a pesar no consumidor final», salienta Ana Lisa Sousa.
Ainda assim, a Vandoma continua focada em fazer crescer a notoriedade internacional, através da participação em feiras como a Pitti Uomo e a Première Vision. Paralelamente, pretende reforçar a presença no canal digital, principalmente na loja online que, embora ativa, ainda está longe do seu potencial. «Temos de investir para divulgar mais, porque poderá ser uma boa plataforma», reconhece Ana Lisa Sousa. Atualmente, a loja funciona como canal de venda direta ao consumidor e como montra de coleções para os clientes profissionais. «Tentamos ter um produto diferente, porque acho que quem procura uma gravata online, procura um produto diferente. Não vai comprar uma gravata azul-marinho ou lisa», ressalta a sócia-gerente.
