27 de Agosto, 2024 Soochy Dev

Recomendações para o novo Governo – a visão da Somani

Antes de saberem o resultado das eleições de 10 de março e de como seria constituído o próximo Governo do país, os empresários questionados pelo Jornal Têxtil apontaram algumas das prioridades e eventuais medidas que deveriam ser assumidas nos próximos tempos. O reconhecimento da importância da indústria têxtil e vestuário na economia e estrutura social do país foi uma das referências, a juntar-se à revisão fiscal, tributação sobre o trabalho, apoios à internacionalização e modernização, incluindo na transição digital, defesa dos interesses da indústria em Bruxelas, mas, sobretudo, a estabilidade desejada para que as empresas possam ser competitivas nos mercados internacionais.

Esta é a perspetiva de Nuno Costa, diretor comercial da Somani.

«A Europa, com a globalização, deixou-se levar pela política de alguns países, como é o caso da França e da Alemanha. Os alemães, nomeadamente, trocaram as indústrias tradicionais do Sul da Europa para venderem a sua indústria automóvel na China. Agora, passados 30 anos, perceberam que os chineses estão a colocar carros no mercado europeu 30% mais baratos. Estão a provar do seu próprio veneno. Não me parece que isso tenha retorno, porque a economia está tão interligada que é muito difícil, mas assim também não pode continuar. Na sustentabilidade, por exemplo, costumo dizer aos clientes que já somos sustentáveis há 20 anos. Fomos das primeiras empresas a ter certificação GOTS e tínhamos de explicar aos clientes, em 2006, o que é que era orgânico e porque existia uma diferença de preço. Agora toda a gente lembrou-se que temos de ser sustentáveis. Mas na Europa andamos a comprar carros elétricos, a apelar à reciclagem, e depois compramos tudo à China e à Índia, que são os que mais poluem. Ou seja, está tudo mal organizado. Penso que as empresas que estão neste sector, um sector de grande consumo como são os produtos têxteis, sentem esta falta de estratégia. Estamos a competir internacionalmente com regras completamente diferentes. Na pandemia, os países europeus perceberam que não fazíamos não-tecidos, não fazíamos dispositivos médicos nem medicamentos. Abriram os olhos e deram dinheiro para que fosse instalada indústria nesse sentido. Mas a seguir continuaram a comprar lá fora. Isso revela falta de estratégia, não sei se por cada país ter os seus interesses, não sei se é por recebermos muito dinheiro e pensarmos que o dinheiro justifica o encerramento de algumas indústrias, mas não me parece que seja esse o caminho. Em Portugal, por exemplo, a nível têxtil, temos um cluster único na Europa, temos indústrias de referência em todas as áreas da cadeia de valor. Devíamos proteger isso. Como? Não é ter apoios, é diminuir a carga fiscal, por exemplo, isentar até um determinado escalão, que permitisse aumentar o salário mínimo, mas a empresa não fosse onerada nos custos. Assim, estão-nos a tirar competitividade todos os anos».

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