Em 2026, Portugal marca presença no radar do aprovisionamento de moda, integrado nas estratégias de nearshoring, à medida que profissionais de sourcing privilegiam a velocidade e a flexibilidade da cadeia em detrimento do custo da mão de obra.
Sunil Daryanani adverte, contudo, que as infraestruturas e os obstáculos políticos poderão travar o ritmo, sugerindo o Norte de África como mais facilmente integrável na cadeia de aprovisionamento europeia.
China lidera
Apesar das pressões tarifárias, Robert Antoshak prevê que, em 2026, a China mantenha um papel central em termos de escala, capacidade e integração de matérias-primas. «As tarifas da Seção 301 não desapareceram e as exclusões agora são prorrogadas ou ajustadas como um passe de temporada em Washington. Isso mantém a pressão sobre as marcas para combinar a China com satélites: Vietname, Camboja, Indonésia e outros». Sunil Daryanani reforça que «o papel da China evoluirá, mas persistirá», tendo em conta a experiência e a rapidez do país asiático.
Na opinião de Kanul Kapur, diretor-geral da Coats Digital, a China continuará vital para materiais e determinadas categorias de produto, enquanto a confeção se dispersará pelo Sul da Ásia, Sudeste Asiático e regiões próximas. Sheng Lu, professor e diretor da pós-graduação em Estudos de Moda e Vestuário da Universidade de Delaware, sublinha a liderança chinesa na Ásia, referindo que as associações têxteis e de vestuário sediadas em países do Sudeste Asiático «veem a China como um parceiro vital e uma fonte de investimento».
Sheng Lu acrescenta que a China não se preocupa em perder quota de mercado nos EUA uma vez que «os líderes da indústria chinesa parecem confiantes porque sabem que muitos países asiáticos produtores de vestuário continuam fortemente dependentes dos materiais têxteis chineses e que muitas fábricas de vestuários em países como o Vietname e o Camboja são financiadas ou pertencem a investidores chineses».
Ásia mantém poder
Na Ásia, Robert Antoshak descreve as principais fontes de aprovisionamento como estando «sob pressão, mas ainda enormes». Sunil Daryanani detalha especializações: o Bangladesh continuará a ser usado para volume e vestuário desportivo; a Índia como plataforma industrial integrada para vestuário em algodão; o Sri Lanka para lingerie; o Vietname deverá crescer em vestuário técnico de exterior, enquanto a Indonésia e Camboja reforçam a produção de peças básicas.
O vice-presidente de aprovisionamento da Grey Matter Concepts alerta para os riscos no Paquistão, devido à escassez de energia e a preocupações com a segurança, bem como em regiões do Sudeste Asiático, e aponta para desafios distintos na Índia e no Bangladesh. Sobre a Índia, refere que a «barreira tarifária de 50% dos EUA já está a sufocar as exportações têxteis e a forçar Deli a fazer uma triagem, como eliminar as taxas aduaneiras de importação de algodão para manter as fábricas a funcionar». Já o Bangladesh enfrenta «lutas salariais duras, repressões severas e uma frágil reestruturação política».
Emily Gordon-Smith contrapõe que a Índia está a diversificar mercados, salientando que «o país registou um crescimento recorde nas exportações têxteis para 111 países além dos EUA», apoiado por iniciativas governamentais e pelo Acordo de Comércio Livre Índia–Reino Unido, assinado em 2025. Emily Gordon-Smith acrescenta ainda que os fornecedores asiáticos não parecem estar apreensivos com as tarifas norte-americanas, nem acreditam que estas representem um desafio fundamental para a sua trajetória a longo prazo.
O potencial para a América Central
Robert Antoshak coloca a América Central na sua lista de regiões em ascensão, destacando a Guatemala, Honduras, República Dominicana e México, que beneficiam da proximidade com os EUA.
Já Steve Lamar, presidente e CEO da American Apparel & Footwear Association (AAFA), refere o «progresso encorajador» com parceiros do acordo comercial Dominican Republic-Central America FTA (CAFTA-DR), nomeadamente El Salvador e Guatemala. Por outro lado, Julie Hughes frisa a vantagem da produção isenta de impostos, principalmente «se a concorrência for cobrada pela taxa básica MFN (nação mais favorecida) de até 32% para vestuário e outra tarifa recíproca de 19%».
